Expiação e provas

 Provas e expiação 

Texto produzido por Weverton Duarte Araújo e apresentado no grupo de estudos sobre mediunidade, no CEME- Centro Espírita Mestre Erasto, em 17/06/2025. 

 

Se há algo facilmente perceptível em nosso tempo, é a falta de conceitos bem definidos sobre todas as coisas. A ignorância sobre a verdade das coisas nos escraviza e impede nosso avanço rumo à evolução. 

Não somos donos de uma verdade absoluta. Eu, muito menos.

Trabalhemos então, mesmo que de forma introdutória e superficial, os conceitos de provas e expiação. 

Como tratamos de um tema ligado à religião, sugiro partirmos das religiões mais presentes na cultura ocidental e que mais influenciam nosso modo de pensar e agir. 

 

No Judaísmo 

Para o sistema religioso judaico, de onde se originou o cristianismo, o pecado é um fato que faz com que o homem erre o alvo, ou seja, não alcance o fim para o qual foi criado. Isso coloca em cena a necessidade de se expiar (em hebraico, “kipper”), ou seja, expurgar, cobrir (colocar algo para substituir). Isso marcaria o sinal de arrependimento e promoveria a reconciliação do povo com seu deus. 

O Yom Kippur (dia da expiação) é observado ainda hoje em Israel: anualmente, é realizada uma cerimônia que relembra esse hábito milenar dos judeus, que ofereciam (sacrificavam) um animal ao seu deus, em troca do perdão pelos pecados do povo.  

Esse hábito da expiação, do expurgo, da limpeza do corpo do homem, retirando o pecado e tornando-o novamente digno de estar na presença de seu criador, tornou-se comum e diversificado. Os que possuíam recursos, levavam ao sacerdote animais maiores, enquanto os mais pobres ofereciam para sacrifício, aquilo que lhes era possível. Os que nada tinham para ofertar, acabavam por se tornar marginalizados e excluídos (e até escravizados), assim como o são atualmente os pobres em nosso meio (permanecem sujos, impuros, por sua incapacidade de expiar o próprio pecado, já que não tem como pagar por isso).  

 

No Cristianismo 

O cristianismo, como uma religião à parte do judaísmo, começa a surgir a partir dos primeiros textos produzidos (evangelhos atribuídos a Mateus e Marcos, narrando a história de Jesus) por volta do ano 70dC. 

A grande mudança que Jesus apresenta em sua pregação, é exatamente a possibilidade de você se dirigir diretamente a Deus, buscando a própria redenção, já que ele se apresenta como “cordeiro humano”, para representar os pecados de toda a humanidade. Vale lembrar que Jesus era judeu e agiu simbolicamente, conforme os costumes do seu povo e de sua época. 

Jesus vem então, se oferecer como modelo, exemplo de que é possível a cada espírito encarnado, promover meios para a sua própria evolução, através de seus próprios atos de reconhecimento, arrependimento, reparação e mudança de atitude. 

 

No Cristianismo católico e no senso comum 

A partir do surgimento de Jesus e seu sacrifício voluntário, acontece uma inversão na lógica da expiação. 

Seguindo o exemplo dele, torna-se obsoleto e inadequado o sacrifício de um outro animal como forma de resgatador da minha boa relação com o criador. O homem então, é instado pelo “filho do homem” a ofertar-se a si mesmo e assim, promover esse resgate. A expiação então, se torna, a partir do exemplo deixado por Jesus, uma forma de o próprio homem, agir em direção à reconciliação com Deus. 

O problema dos seguidores do catolicismo, ficou evidente na reforma protestante do século XVI, sustentada principalmente pelo alemão Martinho Lutero e pelo suíço Ulrich Zuinglio. Eles perceberam o quanto a igreja voltou aos hábitos ultrapassados do judaísmo, mantendo o homem na dependência da ação de um terceiro, neste caso, o sacerdote. 

Além disso, muitas heresias foram surgindo em meio ao povo, a partir do desconhecimento e da própria manipulação do “texto sagrado” imposta pelo clero. Mitos, lendas e crenças populares sem base teológica, se multiplicaram e tomaram corpo mundo afora. 

 

No Cristianismo evangélico 

Para o cristão evangélico tradicional (excluo aqui os pentecostais e neopentecostais, testemunhas de Jeová, adventistas do 7º dia, mórmons, por se apresentarem como cristãos, mas serem adeptos de práticas do discurso judaico e outros), Jesus fez de uma vez por todas, a expiação necessária. Assim, cabe a nós, imitá-lo, “morrendo para o mundo”. 

Isso causou um grande conflito no sistema religioso, até então, baseado na intervenção de um terceiro que faria por nós o sacrifício. Jesus vem mostrar que cada um tem que fazer o próprio trabalho em direção à evolução. É dele a afirmação de que “cada um negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Lucas 9:23). 

Esse desafio do cristo, é o grande conflito existencial do cristão, no que diz respeito ao ato expiatório, já que contraria a lógica humana da autopreservação. Ou seja, como negar-se a si mesmo e ainda assim, conservar-se e perpetuar-se? 

Embora os protestantes originalmente tenham investido no acesso e no estudo do texto bíblico, ainda assim, não conseguiram evitar o surgimento e a manutenção de alguns mitos e lendas, tais quais aquelas presentes no catolicismo popular. 

É óbvio que nossa argumentação carece de profundidade. Mas, é o que temos para hoje. Nossa proposta, no momento, não é mesmo aprofundar, mas, instigar reflexão e pesquisa. 

 

No Islamismo 

Esse sistema religioso é fortemente marcado por práticas ritualísticas, com a intenção de purificar o corpo e a alma, especialmente quando por exemplo, o crente não observa os períodos de jejum e oração. O jejum é uma marca do Islamismo, pois durante um mês inteiro, (o Ramadan) eles devem se abster de água e comida, do nascer ao pôr do sol. Também se abstém de relações sexuais durante todo o período. 

Existem então, formas de “pagar” pelo erro. Frequentemente, as ações de purificação estão ligadas ao desprendimento material, como em fazer doações de alimentos a pessoas carentes. De qualquer forma, a preocupação maior está ligada às práticas materiais, embora as orações sejam também uma marca da prática islâmica, já que o homem adulto precisa fazê-las pelo menos cinco vezes ao dia. 

Com base no Al Corão, livro base do Islã, fruto de revelações recebidas pelo profeta Mohammad (Maomé), a partir do ano 610dC, os muçulmanos refutam completamente a possibilidade de reencarnação do espírito. O homem desencarnado aguardará, segundo suas obras, em paz ou sofrimento, no túmulo, até que chegue o dia da ressurreição de todos, que retornam à origem (Allah). 

 

Na Umbanda 

A Umbanda é uma religião de raiz africana, mas que surgiu no Brasil, reunindo traços do catolicismo, do kardecismo e da cultura indígena brasileira. Surgiu oficialmente a partir da manifestação do Caboclo 7 encruzilhadas, em 15 de novembro de 1908, por meio do médium Zélio Fernandino de Morais, questionando as práticas religiosas elitizantes e excludentes. 

A ética da Umbanda precisa ser devidamente estudada e compreendida, se queremos realmente entender e valorizar essa manifestação cultural e religiosa. 

Ora, a Umbanda trata desse nosso tema, de forma muito livre, assim como trata todos os conceitos religiosos e culturais em sua área de atuação, sem a pressão e a rigidez que encontramos nas manifestações religiosas que citamos acima. 

Assim, a expiação ali, acontece por meio de oferendas, que, (ainda aos moldes do antigo judaísmo, oferece a vida do outro, em substituição à sua e que todo mal que me atinge vem do outro). Aí também se vê a barganha com a divindade. Oferecemos coisas para cobrir pecados. 

Por outro lado, os praticantes são orientados a buscar as boas ações, em função da Lei da semeadura, ou do princípio da causalidade (causa e efeito) encontrada em várias manifestações religiosas e filosóficas, como na cultura egípcia, por exemplo. 

 

No Kardecismo 

O espiritismo kardecista, de um modo geral, tem clara a definição de expiação, como sendo uma ferramenta de evolução do espírito, que, através da reencarnação, quita débitos anteriores e ao mesmo tempo, soma evolução espiritual, aproximando-se mais e mais da luz, da perfeição, ou da condição de Espírito bem-aventurado", ou Espírito puro, como são denominados no Livro dos Espíritos”, os espíritos que alcançaram o topo da evolução. 

No livro dos espíritos, 4 ª parte, capítulo 2, trata-se do subtema “expiação e arrependimento. 

Ali é esclarecido o conceito de expiar, da seguinte maneira: “Expiar: sofrer as consequências de um erro cometido; cumprir pena ou penitência que reabilita; reparar faltas cometidas contra terceiros; obter perdão; purificar-se de crimes ou pecados por meio de ações nobres. 

As provas a que somos submetidos (desafios, dificuldades na caminhada a serem superadas), são as oportunidades de alcançar a purificação, ou, em outras palavras, concretizar a expiação de nossas ações inadequadas. 

Ainda no livro dos espíritos, na 2ª parte, capítulo 1, no título “evolução dos espíritos”, temos uma clara introdução ao modo pelo qual acontece a evolução de cada espírito e a claríssima afirmação de que os próprios espíritos se melhoram. 

Mais adiante, no capítulo 4 (sobre as várias existências do espírito), recebemos mais esclarecimento sobre a função da reencarnação como prova a ser vencida. 

Essas provas são dadas de forma justa, conforme comenta Kardec em “justiça da reencarnação” (comentário de Kardec). 

E essas provas podem ser impostas por Deus, ou até mesmo escolhidas pelo espírito, como se vê, ainda na 2ª parte, no capítulo 6 A vida no mundo espiritual – subtítulo “escolha das provas” (pergunta 258) 

É dado ao espírito em vias de reencarnar, a possibilidade de escolher o tipo de provas pelas quais passará na encarnação seguinte. (comentário de Kardec em “a escolha consciente do espírito). 

 

 

RESUMO 

Em resumo, precisamos tentar perceber a vida a partir da perspectiva do espírito que habita nosso corpo. Ou melhor, precisamos tentar cada vez mais, perceber o momento que vivemos, pela perspectiva da nossa essência, ou seja, do espírito e não do corpo que habitamos temporariamente. A diferença é sutil, mas, ao mesmo tempo, é muito grande. 

Obviamente, não é um exercício fácil, pois somos muito fortemente conectados ao mundo físico em que estamos, de modo que somos levados naturalmente a olhar todas as coisas com os olhos da carne. Isso nos faz sentir com muita intensidade o desconforto que as provas causam nesse corpo. Assim, nos afastamos da possibilidade de perceber os benefícios que tais provas trazem ao espírito. 

Quanto aos atos expiatórios, espero que tenha ficado claro para todos nós, se tratar de ações conscientes, no sentido de mudar a direção do nosso comportamento moral, especialmente na tentativa de reparar danos causados pelas nossas fragilidades e consequentes ações inadequadas. 

Mais que uma tentativa de reconciliar a relação com o divino e alcançar a evolução no plano espiritual, é necessário que entendamos a necessidade assumir a responsabilidade por nossas ações na vida diária, em relação aos nossos companheiros encarnados. Assim, é urgente que façamos esse movimento de expiar, limpar, expurgar de nós a culpa, que nos consome e atrasa nossa evolução. Precisamos admitir nossos erros e mudar de direção. Precisamos aprender a perdoar a nós mesmos e aos outros, para que todos alcancemos crescimento. 

 

Enfim, fica o ensinamento de Jesus, encontrado no Evangelho segundo João, 8:32  

 

Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.

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